Entendendo o gamedesign de Bandersnatch

A Netflix fez sua primeira série interativa, vamos entender como ela montou seu level design.

10 de janeiro de 2019

Transcrição:

Praticamente a internet toda tá falando de Bandersnatch, que é o capítulo interativo da série Black Mirror, né? Acredito que muitos de vocês devam conhecer. Black Mirror é uma série da Netflix que é conhecida por ser controversa e te tirar do ponto de conforto, e eles tão fazendo algo muito inovador assim pra um serviço de streaming, né, pra um serviço basicamente de TV e de série, que é introduzir uma série interativa. Desde aí de Você Decide a gente não tem uma série interativa na TV, talvez?

Bem, mas o ponto aqui não é esse, tá? Vou parar com a zoeira. O ponto é que muita gente às vezes cobra isso das outras pessoas, falando: “Ah, mas a gente tem jogos que são praticamente filmes interativos há muito tempo”, né? Como sei lá, The Walking Dead ou, né, o que as pessoas têm de referência hoje, o Detroit: Become Human. Só que eu acho um pouco injusto a gente a gente colocar isso dessa forma, tá, de filme interativo, a gente querer comparar o Bandersnatch com algum jogo tipo The Walking Dead, porque são coisas radicalmente diferentes. E eu tô fazendo esse vídeo aqui pra poder fazer uma abordagem extremamente interessante de uma mídia diferente, né? Que é falar um pouco sobre o gameplay de Bandersnatch. Só que assim como os jogos exigem uma certa um certo game design, um certo level design, entre muitas aspas aí, pra poder ensinar o jogador como aquilo funciona, sabe? Não é só você fazer o filme e colocar as as escolhas por ali, né? E eu vou falar um pouco sobre isso aqui nesse vídeo, tá? Se você ainda não jogou ou viu o Bandersnatch, eu sugiro que você pause esse vídeo, vai fazer um pouquinho disso. Mas de qualquer forma não vai ter nenhum spoiler aqui, tá? Eu vou falar um pouco sobre a trama, sim. Então depende aí do seu nível de tolerância a spoilers, mas relaxa, eu só devo mostrar os primeiros 15 minutos do filme mesmo. Mas de qualquer forma, eu vou mostrar agora aqui pra vocês como é que é que os desenvolvedores desse vídeo interativo trabalharam toda a questão do game design, né, de como ensinar o jogador como de fato se jogar aquilo ali sem nenhum tipo de frustração.

E esse é um dos vídeos explicativos sobre o episódio, né, em que a Netflix basicamente ensina para o espectador como é que funciona esse episódio interativo. Só lembrando que o público que tá vendo isso aqui pode ser um público que nunca jogou um jogo na vida. Então é de fato muito interessante a abordagem que eles vão ter que fazer a partir de agora pra tornar esse episódio algo interessante pra quem nunca jogou um jogo na vida, pra quem não sabe o que é um controle ou essas coisas assim, e tornar isso da forma mais amigável e interessante possível. Então essa tela de introdução que ele fala que é um jogo, que é um vídeo interativo, não é desnecessária. É o jeito da Netflix ensinar pra pessoa como é que tá funcionando a plataforma, né? A gente dá pra fazer aí até um paralelo a vários jogos aí que ensinam o jogador colocando ali as mecânicas básicas pra ele aprender logo de início e ele não progredir de uma parte até passar daquela parte, né? Eu já citei aqui várias vezes aqui o primeiro Mario do Nintendinho, que ele muitas vezes não te deixa passar de uma parte específica até você aprender aquele comando específico, né? Aprender a pular e tudo mais. E essa parte do Black Mirror é exatamente ensinar ao jogador como se interage, pra quando aquilo pular na tela na frente dele ele já saber o que fazer, já saber como é a interface dos botões pra que aquilo seja algo familiar pra ele, né?

E a gente já começa aqui com a introdução. Vou deixar passando aqui. A gente conhece aí o nosso protagonista, né? E vou explicar um pouquinho sobre o que é de fato o Bandersnatch e o que ele torna, e como ele arruma um jeito da própria história ensinar um pouco ao jogador como funciona. Bem, só lembrando que Black Mirror, ele é uma série pra maiores de 18 anos, então você vai esperar que não tenha nenhuma criança aí ou até nenhum millennium jogando, assistindo Black Mirror, né? E talvez aí eles já tenham até feito uma pesquisa de mercado. A galera que acompanha o Black Mirror já é uma galera um pouquinho mais velha, então dá pra chutar ali talvez 30 anos? É um bom palpite aí do público-alvo do episódio. E a própria história, ela se passa ali em 1984, em que é praticamente o auge ali do do livro-jogo, né? Que a gente aqui no Brasil talvez não seja muito familiar, mas foi algo até bem popular nos Estados Unidos, principalmente pra galera que foi adolescente aí nos anos 90.

Então, a própria história do episódio gira em torno de algo que já mostra um conceito familiar. Então, eu garanto que teve muita gente que viu esse episódio e falou: “Porra, livro-jogo. Já joguei, sei mais ou menos como funciona.” Que o livro-jogo é basicamente um livro em que ele te dá algumas opções pra escolher, né? Sei lá, se você fizer tal coisa, vá para a página X; se você quiser fazer tal coisa, vá para a página Y. E o Bandersnatch, ele é muito mais um livro-jogo do que um jogo de videogame em si, ou uma série em si, né? E faz muito sentido eles conseguirem pegar, colocar isso na história, e já pra poder explicar um pouco pro espectador como funciona o episódio em si. Então isso, eu achei isso extremamente interessante e curioso, dele próprio dele usar a própria história pra explicar um pouco o gameplay. E aí a gente tem a primeira decisão do Bandersnatch, né, que o jogador decide se ele vai pegar um Sugar Puffs ou um Sucrilhos no café da manhã. É uma decisão completamente ínfima. Vou clicar aqui no Sucrilhos.

É uma decisão totalmente boba e simples. Essa primeira decisão, ela é muito importante porque é uma decisão totalmente insignificante pra história. Ela definitivamente não importa, não afeta em nada. É só pra poder ensinar esse conceito pro jogador em um ponto de conforto. A gente vê isso em vários jogos quando vai ensinar a jogabilidade de um conceito diferente pro jogador ou quando é algum jogo de plataforma que ele vai tentar ensinar ao jogador as primeiras mecânicas, e ele faz isso colocando o jogador em um ponto de conforto, né? Às vezes vai ensinar ele a pular, coloca, não precisa colocar um buraco embaixo logo de início, né? Aqui a gente tem a segunda decisão, que é uma decisão que influencia pouquinha coisa, não vou nem entrar em detalhes, mas acho que dá pra gente considerar aí que continuou como uma decisão inofensiva. Então é isso que os jogos costumam ensinar pra gente de início: quando eles tão explicando o gameplay logo de cara, eles colocam decisões insignificantes, decisões que não vão ser punidas, pro jogador simplesmente se acostumar com o gameplay. E é exatamente isso que o Bandersnatch faz nesses primeiros minutos, né? Ele coloca ali duas decisões insignificantes, que não vão afetar no roteiro, que não vão afetar na história, exatamente pra poder mostrar ao jogador como o gameplay funciona, sabe? Eu achei isso uma uma sacada bastante interessante da série, né? Ao mesmo tempo que ele tá introduzindo o personagem, tá focando ali naquela ambientação anos 80 e tudo mais, ele consegue colocar um jogador num ponto muito confortável pra aprender como tudo funciona, né? E se o jogador, pensando aí, né, no público mais velho dos Estados Unidos, já ouviu falar alguma coisa sobre livro-jogo, ele já consegue entender mais ou menos como a coisa funciona, que são decisões praticamente binárias, né? Ou ele vai pelo caminho A ou pelo caminho B, e isso de alguma forma influencia no decorrer da história, e essas decisões podem ficar um pouco complexas no futuro.

Bem, e eu achei a temática do filme do do filme interativo interessante por ela abordar essa própria ideia de gameplay. Ela fala sobre jogos, ela fala sobre decisões. E a gente tá indo aí pra primeira decisão significativa do game, né, em que o protagonista tá conhecendo aí um desenvolvedor mais experiente. Então, os personagens se conhecem, Stefan e Colin. Se cumprimentam: “Eu sou o Colin”, “OK”, “Ah, joguei todos os seus jogos”. E eles basicamente se conhecem. São pessoas que nunca se viram na vida e eles tão se conhecendo ali naquele momento. Eles não se conhecem, eles nunca falaram antes um com o outro, e eles não fazem ideia sobre o trabalho um do outro. É bom guardar essa informação pro futuro, tá? E mais pra frente, ele vai tomar uma decisão que pode parecer um pouco óbvia pro jogador tomar, mas isso isso vai ser interessante. Então, eu vou progredir um pouco mais na história pra poder explicar isso melhor pra vocês.

Mais pra frente o jogo vai te dar a primeira decisão realmente significativa. Então, imagine que você é um desenvolvedor de jogos de fundo de quintal e você tá indo numa empresa, o seu sonho, né? Você acabou de conhecer o seu desenvolvedor do qual você é fã e tá tentando vender o seu peixe. E a empresa de fato tá interessada no que você quer fazer, só que a empresa fala o seguinte: “Olha, esse jogo precisa tá pronto até uma data X, eu vou te dar uma equipe, você vai trabalhar com essa equipe e vai ser legal, vai ser fantástico, vai ter pessoas trabalhando pra você, uma equipe pequena só sua”. Ele tá falando basicamente para o jogador… eu eu vou… eu não consigo pausar agora. Eu vou aceitar aqui. Aceitar a proposta dele. Só pra eu pausar aqui e conseguir conversar melhor com vocês. Eu vou conseguir fazer isso com a barra de espaço? Pronto, consegui. Eu pausei aqui pra explicar um pouco melhor sobre o que que tá acontecendo.

Bem, o Stefan, ele acessou, ele aceitou uma proposta praticamente irrecusável, né? Que você tem aí um desenvolvedor independente que, pô, tá numa empresa e essa empresa te faz uma proposta que não tem nenhum ponto negativo, né? Falou: “Tô te dando uma equipe, ela vai trabalhar junto com você no jogo e vai ser fantástico”. Então, por intuitividade, a pessoa que tá assistindo vai tentar aceitar, porque tá torcendo pelo protagonista. E olha só o que é que acontece, né? Você aceita a proposta, o Colin fica claramente decepcionado, e o dono da empresa fica feliz, né? Fala: “Poxa, vamos…” Aí que depois que você aceita é que começa a aparecer algo um pouco chato, né? Que o desenvolvedor fala: “Beleza, a gente vai trabalhar com a equipe, só que só lembrando: a gente vai ter que compactar o seu jogo, então ele não vai poder ser tão complexo assim”. E aí você como jogador fala: “Puts, esse essa desvantagem não tinha sido me apresentada antes, né? Não sei se eu tomei a decisão certa”. E o Colin coloca a mão no seu ombro e fala: “Escolha errada”. E o que que ele tá falando pro jogador? Olha, talvez você não tenha escolhido a melhor coisa, né? E eles lançam o jogo aqui, aqui vai falar um vai ser um review breve sobre o jogo desse programa de TV, falando: “Olha, o jogo é muito curto, foi feito às pressas, eles cortaram muita coisa e não é um bom jogo”.

E aí acontece algo espetacular. Bem, o Stefan fica claramente chateado com a nota zero dele e fala: “Vou tentar de novo”. E é algo muito interessante porque ele de fato tenta de novo, sabe? Isso é uma quebra de quarta parede bastante estranha, mas já apresenta pro jogador que ele pode fazer isso! Que quando acontece alguma coisa que talvez ele não goste ou que vá a história pegue um rumo que talvez ele não curta, ele pode conseguir voltar e abordar uma nova linha do tempo com outras decisões. Então o que que ele acontece aqui? Ele tá mostrando pro jogador que ele tá repetindo a mesma história, né? Ele tá só que de forma muito resumida, tá tomando meio que as mesmas decisões que tomaram antes e voltando no ponto de partida que ele tomou aquela decisão que mudou a vida dele. Mas olha só que sensacional: quando você continua nessa linha do tempo, os dois personagens vão se conhecer, eles falam: “Peraí, a gente já não se conhece?”, sabe? E é um diálogo diferente do que tinha na primeira vez que você foi, sabe? Então é basicamente o jogo te explicando na cara como funciona de fato um livro-jogo, né? Em que você toma decisões, essas decisões talvez possam não te levar a nada, talvez possam te levar pra algum lugar em que você não quer ir, mas também não tem problema: você pode, assim como em um livro-jogo, voltar em páginas anteriores e tomar decisões diferentes. E o jogo ele ele coloca isso dentro da narrativa pra poder te explicar isso. Sabe, ele muda o diálogo dos personagens pra mostrar: “Olha, eu sei que você voltou atrás e sei que você quer tomar uma decisão diferente”. E caso você tome decisões diferentes, caso você faça coisas diferentes, a história vai ser diferente, sim. Sabe, isso é sensacional! Ele coloca a própria narrativa pra te explicar como funciona o gameplay, sabe? Isso é isso é incrível! Isso é incrível e tem vários momentos aí que que é de quebra de quarta parede, que eu também não vou estragar nenhuma surpresa, mas é uma experiência que, sem sombra de dúvida, vale a pena muito ser vivida.

E é bastante legal o jeito que ele faz isso, o jeito que ele ensina pro jogador como tudo funciona, como a interface funciona e como o conceito de um livro-jogo funciona. Espero que abra outras portas aí, tá, pra gente ter mais livros interativos na Netflix. Bem, Black Mirror sempre foi uma série que que é um pouco fora da curva mesmo, sabe? Então fez sentido eles usarem isso pra poder fazer essas experimentações. Então eu acredito que talvez que façam uma série toda interativa? Não sabemos. Espero que tenha sido uma uma boa audiência, isso aí. E isso é bastante interessante porque movimenta a comunidade, né? A comunidade, o Reddit fica louco, né, eles tentando fazer fluxogramas de todas as escolhas e se tem final escondido ou se não tem. É bastante interessante. E que esse entretenimento interativo aí talvez leve algumas pessoas pra esse tipo de jogos, né? Leve mais pessoas pro The Walking Dead, leve mais pessoas pro The Mood, pro Undertale e vários outros jogos que são principalmente focados em decisões e escolhas.

Bem, e é isso! Espero que vocês tenham gostado desse episódio fora da curva em que eu tô falando sobre gameplay de uma série. Eu pretendo fazer isso sobre outras séries que envolvem games depois, eu só preciso assistir um pouco mais dessas séries, longa história. Mas é isso. Basicamente isso, espero que vocês tenham gostado. Deixa aí seus comentários. Se você ainda não se inscreveu, se inscreva, dê like, coloque o sininho, faça todas essas coisas assim. Obrigado e até a próxima. Ah, e claro, por que não? E você tem que jogar Black Mirror: Bandersnatch.

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